domingo, outubro 30, 2005
Ficção teorizada ou teorizada ficção?

Através de uma trama muita bem construída - e fantasiosa também -, a trilogia “Matrix” coloca em evidência discussões acerca de um (exacerbado) futurismo controlado na relação de submissão dos homens às máquinas, além da re-paginação do cristianismo incorporado em um novo Messias, chamado Neo Anderson.
A produção em si vai muito além de referências já tidas no cinema e na literatura, no que diz respeito à dominação do mundo pelas máquinas. O filme trás uma concepção extremista, bastante exagerada, em uma época em que o aparato tecnológico domina o poder de controle, legitima sua posição hegemônica, enquanto os humanos (retratados em base submissa e periférica) revelam o aspecto de sobrevivência daqueles que outrora dominavam as máquinas. A invenção humana do maquinário a fim de acabar com trabalhos forçados antes realizados por pessoas acaba se voltando contra o próprio criador (qualquer semelhança ou referência com outras histórias não é mera coincidência).
Mais do que a própria inversão dos papéis anteriormente postos, há a humanização das máquinas. No terceiro filme da série, intitulado “Matrix Revolutions”, há trechos nos quais as máquinas e softwares revelam sentimentos que são próprios de humanos. O amor e a confiança são os dois aspectos mais marcantes e facilmente visíveis no último filme da série. As máquinas ganham autonomia sentimental, o que pode ter sido baseado – no momento em que o filme ainda era produzido em roteiro – em teóricos pessimistas a respeito da tecnologia que surgia e se aperfeiçoava durante o século passado.

“Matrix Revolutions” também revela um novo Messias: Neo Anderson. A relação heróica e salvadora entre Neo e Jesus Cristo também está muito longe de ser uma mera coincidência. A incumbência de ser o “escolhido” para salvar a humanidade não é à toa, e muito menos a morte suicida de Neo o é. Ele reclama pela humanidade e em momentos-chave na luta final com o agente Smith, o novo salvador dos humanos ganha um caráter benevolente, de perdão, quase como se dissesse “Pai, perdoe-os, porque eles não sabem o que fazem”.
O mundo virou palco, desde o primeiro filme da trilogia, de uma guerra – bastante ficcional, diga-se de passagem – entre máquinas e humanos. O respaldo teórico a que nos remetemos diretamente ao ver “Matrix” oferece à produção uma carga filosófica que se repete nos outros dois filmes da série, só que em menor grau. “Matrix Reloaded” e “Matrix Revolutions” não são tão detentores de um pensamento que justifique todas as longas cenas de ação ou que ofereça uma reflexão em torno dos aparatos tecnológicos que, em um curtíssimo espaço de tempo, transformou a vida das pessoas na realidade.

Um questionamento interessante é que os humanos guerreiam com as máquinas – independentes – utilizando a própria tecnologia aos humanos submissa. Como assim? Eles usam o maquinário que eles conseguem controlar – ou seja, máquinas que não são “vivas” – para lutar contra aquelas que, por algum motivo em especial não necessariamente esclarecido, ganharam vida. Por que? A princípio a humanidade parecia ter voltado aos primórdios da pré-história ao se tornarem classe rebaixada às máquinas, quando retratados na cidade de Zion, por exemplo. E, no entanto, tal impressão se concretiza na justificativa de que se trata de uma pré-história informatizada. Estranho, não é?
Pura ficção, com elementos que valem a pena (não) ser discutidos.
*Foto retirada dos sites Cinema Savvy, Cinema Review e Answers
Comments:
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Matrix é uma das coisas mais cool que apareceram nos últimos tempos. Embora eu ache os dois últimos longas da trilogia meio mercadológicos, feitos só pra arrancar dinheiro do público, o conjunto, em especial o primeiro filme, dá brechas para inúmeras interpretações e animadíssimas conversas. Além dos filmes, é interessante assistir também Animatrix, uma coleção de nove animações que conta os primórdios da Matrix. Os desenhos são (desculpe o termo) fodas demais, tamanha a qualidade, tanto das histórias, quanto das animações.
Sobre o paradoxo que você citou no texto, dos humanos usarem máquinas para combater as máquinas, acredito que o fato de Neo ser o salvador justifique e resolva este problema. No começo, Neo só tem poder dentro da Matrix. Mais tarde, já no final de Reloaded, ele consegue parar uma sentinela no mundo real, e é aí que a coisa começa a ficar interessante. A meu ver, é aí que Neo começa a se revelar como o escolhido. Em Revolutions, isso fica escancarado, e mostra que, apesar de todo o maquinário bélico dos humanos, foi algo estritamente humano, o sentimento, que culminou para a trégua na guerra entre máquinas e humanos. E o sacrifício de Neo era desnecessário, foi só pra dar uma dramaticidade a la dramaturgo brasileiro à trilogia, hahahaha!
Abraços!
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Sobre o paradoxo que você citou no texto, dos humanos usarem máquinas para combater as máquinas, acredito que o fato de Neo ser o salvador justifique e resolva este problema. No começo, Neo só tem poder dentro da Matrix. Mais tarde, já no final de Reloaded, ele consegue parar uma sentinela no mundo real, e é aí que a coisa começa a ficar interessante. A meu ver, é aí que Neo começa a se revelar como o escolhido. Em Revolutions, isso fica escancarado, e mostra que, apesar de todo o maquinário bélico dos humanos, foi algo estritamente humano, o sentimento, que culminou para a trégua na guerra entre máquinas e humanos. E o sacrifício de Neo era desnecessário, foi só pra dar uma dramaticidade a la dramaturgo brasileiro à trilogia, hahahaha!
Abraços!
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