domingo, outubro 09, 2005

 

Os cachorros de Dogville


Lars von Trier sabe, de fato, fazer cinema como poucos o sabem. A ousadia do diretor dinamarquês já é marca registrada das produções que capitaneia, roteiriza e dirige. Não é a toa que suas concepções inovadoras de cinematografia já ganharam os palcos e os principais prêmios de festivais como Cannes, como aconteceu com os filmes “Dançando no Escuro” (2000) e “Ondas do Destino” (1996).

Com “Dogville” não poderia ser diferente. A produção, filmada na França e protagonizada pela australiana e queridinha de Hollywood Nicole Kidman (Moulin Rouge), deixou boquiaberto o Festival de Cannes em 2003, assim como deixou furiosa a crítica cinematográfica norte-americana.

Trier simplesmente dispensou o cenário em “Dogville”. A cidade é apenas composta pelas ruas e por meras delimitações das residências rabiscadas no chão. Não há casas, prédios, postes... Absolutamente nada disso. O cenário em si lembra uma planta arquitetônica e a desenvoltura dos atores o materializam em um teatro imaginário.

O roteiro é marcante. Marcante o suficiente para o telespectador esquecer a estranheza inicial do cenário ausente, mergulhando fundo na proposta do enredo. O filme é dividido em nove capítulos e um prólogo, que contam a trajetória de Grace na pequena cidade de Dogville, durante o período da Depressão norte-americana.


É neste contexto, de uma pequena cidade onde todos se conhecem, que Grace será, de fato, uma estranha desde sua chegada. Ela aparece fugindo de um grupo de gangsteres da cidade grande, e é nesta fuga solitária que ela acaba chegando a Dogville, deixando todos apreensivos com a possível ameaça que sua presença possa despertar. Ela se instala na cidade e começa a ajudar todos os moradores nas tarefas do dia-a-dia, como modo de conquistar-lhes a confiança e a simpatia.

Mesmo trabalhando para o bem de todos voluntariamente, ela nunca deixa de ser vista como uma estrangeira pelos habitantes de longa data de Dogville, mesmo por aqueles que simpatizam com ela. Eles cobram dela a hospitalidade que oferecem, dando-lhe mais serviços a serem prestados, explorando a sua bondade inicial em querer colaborar nos trabalhos diários. O detalhe é que tais tarefas nunca foram realizadas anteriormente, sendo atribuídas a Grace a incumbência de fazê-los. Trata-se visivelmente do preconceito ao estrangeiro, explicitado na personagem de Nicole Kidman a relação de xenofobia. Grace é obrigada a fazer tudo aquilo que ninguém tem a vontade de fazer. Ou seja, os trabalhos de âmbito mais cansativos e braçais são colocados sobre a carga diária de responsabilidades da nova moradora de Dogville.

Com o passar do tempo, Grace não será apenas a estrangeira explorada. Ela sofrerá acusações em torno de qualquer coisa não boa que aconteça, e será também o alvo de retaliações, desmandos punitivos e agressões sexuais freqüentes de quase todos os homens da cidade. Grace é freqüentemente estuprada, acusada de roubos e, além disso, torna-se a responsável pelas desavenças que acontecem em Dogville, sob a ótica de seus antigos moradores.


A interpretação de Nicole Kidman é indiscutível. Nicole soube dar toda a consistência de uma mulher subjugada e frágil à personagem de Grace, o que chega a despertar o caráter de mártir em seu papel. Os outros personagens são retratados como os patrões, incisivos, que se aproveitam da situação de bondade alheia para a exploração desmedida. O elenco é ainda composto por Lauren Bacall, Harriet Andersson, Jean-Marc Barr, Paul Bettany, Blair Brown e James Caan.

Para efetivar o seu objetivo de crítica aos Estados Unidos, Trier fez dos moradores de Dogville moralistas por excelência. Na pequena cidade, todos se julgam corretos o suficiente para menosprezar e cobrar a hospitalidade oferecida à nova moradora, Grace. No entanto, tal ideário, supostamente correto, demonstrar-se-á podre de dentro para fora.

“Dogville” é o primeiro filme de uma trilogia de Trier, que será intitulada “U, S, and A”. O segundo filme da série, intitulado “Mandalay” foi um dos filmes mais aplaudidos este ano no Festival de Cannes, mas infelizmente ainda não tem previsão de chegada ao Brasil.

*Fotos retiradas da site UOL.

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